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O que precisamos aprender sobre a tal diversidade

O que precisamos aprender sobre a tal diversidade

Após um começo de semana rico de informações e conhecimentos proporcionados pelo Community Summit, onde inúmeras vozes e corpos puderam compartilhar uma variedade de experiências como poucos eventos conseguem realizar eu ainda fico com esse questionamento: entendemos de fato o que significa diversidade? E estamos prontos para ela dentro das comunidades em que nos entendemos como líderes? Para começar eu admito que tenho um pouco de dúvida sobre essa ideia de líder, considerando que por mais que haja um papel de organização e direcionamento de ações dentro de uma comunidade, a troca é um dos movimentos que enxergo como fundamentais para o funcionamento desses ecossistemas. Isso nos poria a princípio numa condição, com muitas ressalvas, de maior horizontalidade, e consequentemente, com esse papel de liderança mais difuso,  mas essa é uma condição que não vem ao caso nesse momento e sobre o qual agora gostaria de dividir e poder criar conversa com muitos de vocês.

Antes de descorrer sobre o ponto que gostaria de chegar, me apresento um pouco. Há alguns anos, e em parceria com meu namorado, coordeno a Plataforma Explode! focada em trabalhar com grupos de artistas, ativistas, pensadores que trazem no seu corpo e na sua prática noções interseccionalizadas de raça, gênero, classe e sexualidade. Questões que me atravessam como alguém que é negro e homossexual e que por ter vivido num bairro de classe média me vi por muito tempo distanciado das questões que afetam pessoas semelhantes a mim. Até então, nossas práticas estavam focadas em imersões para se refletir essas questões e ações, artísticas e culturais, que possibilitassem gerar renda e possibilitar acesso a instituições e espaços culturais, que até certo momento não tinham dimensão do tamanho e da potência dessa rede. Hoje estamos repensando os caminhos da nossa atuação dentro de uma rede que é mais autônoma e que mantém sua visibilidade e atuação, diante de sua óbvia qualidade discursiva e artística. Mesmo com todas as violências, estigmatizações e limitações que rondam esses grupos diariamente. E nesse sentido foi que, com a ajuda de uma amiga que também participou do evento, cheguei até aqui.

Dentre as muitas definições do conceito de comunidade está a ideia de compartilhar algo comum, e que ao meu ver está muito claro para a maioria das pessoas que discutem e vivem a ideia de community manager, community leader, ou outro termo variante e de atuação semelhante. Eu acho extremamente importante pensar sobre esse comum que nos une, que nos mobiliza e movimenta no mundo. Mas o que minha experiência me traz até aqui é que esse comum a uma comunidade não necessariamente passa pela experiência de corpos que são comuns entre si. Que nesse comunidade podem caber, e devem caber, uma diversidade maior de experiências, para inclusive, impactarem socialmente as relações entre essas pessoas, indo além do consumo de produtos e serviços que essas comunidades podem oferecer. Por que comunidades são sobre pessoas em relação, correto?

Algumas questões práticas vieram de algumas das palestras que vi e assisti. Eu admito não saber profundamente os grupos de cada uma e por isso, antes de entender isso como um apontamento ou uma crítica direta, mas mais como uma forma de refletirmos sobre a questão. Eu também, sempre. Já adianto que fico um pouco envergonhado do apontamento ser de um projeto liderado por uma mulher, mas reflete um dos pontos mais positivos desse evento que é esse protagonismo feminino dentro dessa atuação. Não é um comentário validador e nem vou "pagar de feministo" (longe de mim!), mas é mais um ponto pra se refletir o que leva tantas mulheres ao lugar do empreendedorismo e desse pensamento no Brasil e porque esse pensamento se orienta ao grupo e não somente a sua figura singularmente. Também sem dados técnicos, somente uma reflexão.

O B2Mamy foi realmente uma escolha bem precisa para se iniciar esse evento e foi uma das falas que mais me ateve por diversas questões. É fundamental pensar nesse grupo que sofre dentro de uma sociedade tão machista e que desmerece as questões que passam a maternidade, dentre elas a ausência (por muitos motivos distintos) dos homens nesse processo de criação e formação de seus filhos. O que eu observo ainda, e espero estar enganado, é a menor presença de mulheres negras e/ou periféricas em seus grupos de formação e aceleração, o que reflete as condições sócio-econômicas de nosso país. Como pensar o acesso a iniciativas tão importantes e tão transformadoras como o B2Mamy a um número maior de mulheres? O que é necessário para movimentar uma economia onde pessoas com mais condição econômica de alguma forma possibilitem o acesso das que possuem menor condição? Como a experiência de ambas para enriquecer os projetos que são desenvolvidos e acelerados por essa empresa? E para além de mulheres cisgêneras, como receber e incluir a experiência de  maternidade de mulheres trans e travestis, homens trans, pessoas não binárias? É um universo tão rico e ainda com tanta discussão que necessita ser pensada e discutida e principalmente, vivenciada por esses grupos. Porque, eu acredito, que essas corporalidades, que vivem uma coisa comum trazem especificidades e experiências que são únicas pro mundo.

Tudo isso, e talvez eu seja um pouco prolixo, para olharmos para as comunidades que nos relacionamos e pensarmos nas limitações e potencialidades que nelas existem. Diversidade, termo que entendo ter muita complexidade, mas que enxergo como um ponto ainda crítico quando analisamos nossas referências, equipes, comunidades, círculo de amigos, precisa ser refletido e repensado constantemente. Nunca iremos chegar num balizador final, porque apesar de podermos (pelo menos tentamos) classificar e qualificar consumidores, não podemos conseguimos fazer o mesmo com pessoas (em sua totalidade). Eu só tenho a agradecer por ter participado desse evento, que me fez refletir mais ainda sobre quem eu sou em relação às comunidades que faço parte. E aprender mais sobre como podemos a partir dela gerar impactos que ultrapassem esses universos que se relacionam em algum ponto da história e da vida.

 

Lideres de Comunidade
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