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Inovação Aberta: a mudança deve ser na raiz!

Inovação Aberta: a mudança deve ser na raiz!

Como você definiria inovação? Muitas vezes essa palavra é usada sem se ter em mente uma definição clara do que pode ou não ser considerado inovação. Apesar de haver diversas discussões e pontos de vista sobre a resposta à pergunta inicial deste artigo, a inovação possui três aspectos principais: novidade, aplicação e resultados. De forma simplista:

Inovação é a exploração com sucesso de novas ideias.

O que é Inovação Aberta?

O termo Open Innovation (inovação aberta) foi trazido à tona em 2003 por Henry Chesbrough, e desde então vem sendo alvo de diversos estudos acadêmicos e práticas empresariais. Parafraseando o pai da inovação aberta, Henry Chesbrough:

inovação aberta consiste no uso de conhecimento interno e externo para acelerar a inovação interna e desenvolver o mercado para o uso externo da inovação

Chesbrough sugere que as organizações devem romper os silos e buscar externamente competências que, aliadas ao seus esforços internos, sejam capazes de fazer com que a inovação interna seja potencializada e também com que o mercado se prepare para a chegada e uso desta inovação.

A Taiwan Semiconductor Manufacturing Corporation (TSMC), fabricante de chips para a indústria de semicondutores, é um grande exemplo de empresa voltada à inovação aberta. Após enfrentarem diversos impasses devido ao aumento da complexidade do design de chips fornecido por seus clientes, a TSMC lançou a Open Innovation Platform®, ferramenta que combinou os processos e estrutura de fabricação utilizados internamente pela TSMC (competências internas) com os recursos disponibilizados pelas empresas de ferramentas de design de chip (competências externas). Dessa forma, a plataforma da TSMC conseguiu fornecer aos seus clientes ferramentas confiáveis para design de chips que garantiriam a qualidade necessária desde o momento do design do chip à sua fabricação. Como resultados, essa plataforma de "design certificado" fez com que os caros ciclos de redesenho dos chips fossem evitados, gerando uma redução do tempo de fabricação dos chips em grande volume e, consequentemente, num menor tempo de inserção destes produtos no mercado (e numa maior margem bruta para seus clientes, uma vez que os custos com redesenho caíram bruscamente).

Inovação Aberta versus Inovação Fechada

Como você já deve imaginar, o conceito exposto acima confrontou diretamente o velho paradigma de que as organizações devem fechar à sete chaves seus projetos e setores de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I). Por isso, não é incomum lermos que a inovação aberta é a antítese da inovação fechada, ou seja, ao modelo tradicional de integração vertical das organizações. Para ilustrar melhor as diferenças entre esses modelos, vejamos as figuras abaixo:

O modelo de inovação fechada demonstra uma estrutura clássica onde, através de uma base interna de ciência e tecnologia (C&T), a organização promove atividades internas de pesquisa e o desenvolvimento in house, lançando ao seu mercado alvo novos produtos e serviços. Em contraste, o modelo de inovação aberta permite uma permeação de ideias e recursos ao longo de todo seu processo: a base de C&T se estrutura sobre o conhecimento interno e externo à organização; a tecnologia desenvolvida pode ser licenciada para parceiros ou até gerarem spin-offs para atingir novos mercados, bem como pode também pode se utilizar de elementos externos (e.g. outras tecnologias, times de desenvolvimento) para aprimorar-se (technology insourcing - aqui um artigo bem legal sobre os desafios de implementar-se este processo); os serviços e produtos resultantes deste processo podem atender tanto ao mercado atual da organização quanto a novos mercados.

Vale ressaltar que não há maneira correta de inovar. Seja ele um modelo aberto, fechado ou misto, cada organização emprega para si o modelo que melhor se alinha ao seu modelo de negócio e planejamento estratégico.

Processos na Inovação Aberta: outside-ininside-out e coupled process

Como você deve ter reparado, as informações, recursos e resultados podem seguir diferentes fluxos ao permear ao longo do processo de inovação aberta. Quando o fluxo se dá de fora para dentro (outside-in), temos um enriquecimento da base de conhecimentos da organização através da integração com agentes externos, aumentando a capacidade de inovação da organização (e.g. licensing in spin-ins). Quando o fluxo se dá de dentro para fora (inside-out), temos a geração de valor direto ou indireto para a organização através da externalização de ideias, propriedade intelectual ou tecnologias pouco ou não exploradas, possibilitando sua utilização em outros modelos de negócios e/ou mercados (e.g. transferência de tecnologia e spin-offs). Há ainda o chamado processo acoplado (coupled process), onde ambos os fluxos coexistem e uma filosofia de troca é estabelecida (e crucial), como é o caso de joint ventures e alianças comerciais.

As mudanças devem ser feitas na raiz!

Agora que já entendemos bem o que é inovação aberta, seus processos e outros conceitos correlatos, chegou a hora de entendermos sua principal diretriz.

Ao se implementar um processo de inovação aberta, deve-se ter em mente que atividades isoladas e mudanças superficiais não serão suficientes para, de fato, promoverem os resultados esperados. Mudanças mais profundas e completas devem ser implementadas de modo que o acesso a ideias internas e externas seja facilitado, de modo a criar valor para si e para o ecossistema em que a organização está inserida. Paralelamente, essas mudanças devem definir mecanismos internos para absorver o valor que está sendo gerado. Para entendermos o que é uma mudança na raiz, vejamos o caso do Grupo Telefónica.

Desde 2014, a empresa espanhola Telefónica vem apoiando o empreendedorismo tecnológico e digital através do seu programa global Telefónica Open Future, que conta com diversas iniciativas próprias para prestar suporte adequado ao grau de maturidade das ideias ou projetos apoiadas. Para ideias que precisam de impulso, a Think Big e a Talentum Startups disponibilizam bolsas de estudo, mentoria, espaços de coworking e materiais auxiliares para apoiar jovens e novos empreendedores com ideias inovadoras, em fase inicial. Para projetos que precisam de aceleração, a Crowdworking e a Wayra reúnem parceiros públicos e privados para promover espaços de incubação e aceleradoras corporativas, propiciando um ambiente ideal para obtenção de financiamento, mentorias, conexões globais e networking com outros empreendedores e investidores, possibilitando a progressão dos projetos suportados. Por fim, para startups que buscam investimento, os fundos de investimento Amerigo e Telefónica Ventures financiam e investem em startups consolidadas em diversos países. No total, já foram mais de 1.700 startups apoiadas, além de mais de 1 bilhão de reais em investimentos.

Toda essa estrutura montada pela Telefónica propicia e suporta o surgimento de novas ideias e negócios alinhados com seus objetivos estratégicos, permitindo que a maior parte do valor gerado ao longo de todas as etapas seja traduzido em resultados para a organização e, sobretudo, em desenvolvimento para o ambiente externo no qual está inserida.

Inovação aberta no Brasil

O Brasil possui organizações que vem se destacando quando o assunto é inovação aberta. O Sistema Mineiro de Inovação (SIMI) tem por finalidade promover a integração entre os diversos agentes da tripla-hélice, preocupando-se em conectar mais de 120 instituições (e.g. incubadoras, órgãos governamentais de fomento, universidades) através da estruturação de uma rede integrada e heterogênea com base no ecossistema mineiro de inovação.

Ainda em Minas Gerais, uma instituição que vem executando um excelente trabalho no desenvolvimento de instituições e ecossistemas para o empreendedorismo e inovação é a Wylinka, organização sem fins lucrativos com foco em promoção e transformação do conhecimento através de projetos, capacitações e conteúdo de qualidade (inclusive, se você curte um conteúdo de qualidade, recomendo os artigos da DEEP, plataforma de conhecimento criada pela Wylinka).

Uma última instituição que vem apresentando um trabalho notável no Brasil é o Wenovate, que tem por missão conectar pessoas e instituições em torno de programas de inovação aberta através de comunidades de inovação. Através de workshops, circuitos acadêmicos, eventos, desafios e outras ações (como o 100 Open Startups, plataforma de conexão de startups e grandes empresas criada e mantida por mais de 70 corporações líderes mundiais), a Wenovate propicia um ambiente de engajamento e colaboração responsável por uma rede de mais de 20 mil empreendedores, 6,5 mil projetos avaliados e 800 organizações engajadas.

E você? Já pensou em como sua organização inova? Como fazer mudanças na raiz? Vamos bater um papo!

por Victor Hugo Ferreira Gonçalves

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